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O prémio atribuído pelo SPN à “Romaria”: absurdo ou coerência estética?

Ainda sobre a atribuição do prémio de poesia Antero de Quental 1934, patrocinado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, apresentamos du...


Ainda sobre a atribuição do prémio de poesia Antero de Quental 1934, patrocinado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, apresentamos duas visões que nos parecem complementares. Enquanto o escritor e jornalista Luís Miguel Queirós, de acordo com uma perspectiva contemporânea e democrática, dá conta do absurdo (ou do “ridículo”) dessa atribuição, ao salientar a gritante discrepância qualitativa que existe entre a Mensagem e a Romaria, o intelectual Alfredo Margarido, por seu lado, defende que, aos olhos dos ideários estéticos e ideológicos do Estado Novo, a escolha de Vasco Reis para vencedor foi em tudo coerente.



“O mais espantoso é que o júri que escolheu este pastelão [Vasco Reis] incluía quatro autores respeitáveis: a novelista e dramaturga Teresa Leitão de Barros, o poeta Acácio de Paiva, o já referido Mário Beirão e, pasme-se!, Alberto Osório de Castro, poeta de inegável talento, amigo íntimo de Camilo Pessanha, apreciador de Baudelaire e Verlaine, colaborador da Centauro e de outras revistas modernistas. Poderíamos imaginar que se limitou a subscrever a escolha dos outros jurados, para não criar conflitos. Nada disso. Fez questão de deixar escrito, na sua declaração de voto, que, ao ler Romaria, tivera a ‘sensação que produziria a aparição de um Cesário Verde ou de um António Nobre’. Acontece que este novo Nobre escrevia assim: ‘ Com o dinheiro da ceia/ Vais comprar uma candeia./ Tem paciência, Zé Miguel!/ Antes sofrer a larica,/ Que andar sempre na botica.’

Quando este júri, há três quartos de século, pegou na ‘Mensagem’, sem saber o que o esperava, começou por ler esta quadra, que abre o primeiro poema do livro: ‘A Europa jaz, posta nos cotovelos:/ De Oriente a Ocidente jaz, fitando,/ E toldam-lhe românticos cabelos/ Olhos gregos, lembrando. (...)’ Compare-se com a primeira quadra de Romaria: ‘ – Sou ceguinho de nascença/ Deus o quis e foi por bem.../ Que não vejo assim no mundo/ Tanta dor que o mundo tem...’ Já o júri do SPN nem essa desculpa tinha. Nenhum deles era ceguinho.”

QUEIRÓS, Luís Miguel, “Mensagem clonada”, in Lisboa, Público (“Ipson”), 1-12-2009 [texto integral aqui].

Vídeo: a perspectiva de Alfredo Margarido sobre a polémica que envolveu (e ainda envolve) o prémio de poesia atribuído pelo SPN, em 1934, à Romaria de Vasco Reis. Registo efectuado por Luís Vaz, em Junho de 2006.
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Bookcase: O prémio atribuído pelo SPN à “Romaria”: absurdo ou coerência estética?
O prémio atribuído pelo SPN à “Romaria”: absurdo ou coerência estética?
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