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Sobre o cenário da cena do Palácio Foz


O contraste entre o esplendor da Sala dos Espelhos – assistido pela exuberância decorativa, pela profusão iconográfica de dimensão alegórica e pela magnanimidade da escala – e a ingerência dos modestos (caricaturais) painéis de arquitectura efémera - pautados pelo mutismo abstracto do branco, pelo design linear de ressonância modernista e pelas dimensões diminutas, diríamos mesmo enfezadas, em relação ao espaço que o acolhe -, tem, na lógica do filme, uma intenção simbólica.

Essa intenção simbólica torna-se mais incisiva no modo como ambos – Estado Novo e Fernando Pessoa – reabilitaram ou fizeram uso do brasão nacional. Enquanto no primeiro se verifica uma apropriação redutora feita pelas reformulações gráficas da retórica do Estado (tentando construir um presente à custa da memória nostálgica de um passado glorioso), no segundo, opera-se uma glorificação poética do mesmo, pretendendo volatizar a História de Portugal para colocar, no seu lugar, uma entidade puramente espiritual - Portugal como símbolo vivo e sensível que fermenta futuro.
Na imagem: Sala dos Espelhos, Palácio Foz, Lisboa, na preparação da rodagem da cena de entrega dos prémios literários do SPN

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Uma análise de um poema da Mensagem

Entre os estudos mais interessantes (e importantes) recentemente publicados sobre a Mensagem de Fernando Pessoa, encontra-se o livro de Nuno Hipólito que leva o sugestivo título de “As Mensagens da Mensagem”, publicado originalmente em 2007. 
Tal como o autor explica no seu blog Um Fernando Pessoa, em razão do livro se encontrar actualmente esgotado nas livrarias, Hipólito decidiu disponibilizá-lo online, em PDF gratuito, numa versão actualizada.

A critica literária de Fernando Pessoa sobre a “Romaria”: elogio ou ironia?

A opinião de Fernando Pessoa sobre a obra e a figura de Vasco Reis não é pacífica. O autor da Mensagem escreveu mesmo sobre A Romaria, livro que tinha ficado à frente daquele no concurso do SPN de 1934. Mas enquanto que no website "Um Fernando Pessoa" se refere que esta “crítica, honesta e subtil, parece prova evidente de que [Pessoa] não guardara rancores do prémio que lhe fora a ele mesmo concedido”, já José Blanco, num ensaio intitulado “A verdade sobre a Mensagem” aponta para o sentido oposto:

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