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A sexualidade mediúnica de Fernando Pessoa - The mediunic sexuality of Fernando Pessoa


A escrita automática mediúnica foi usada com frequência por Fernando Pessoa como forma de comunicar com os espíritos dos mortos. Henry More é o primeiro e mais persistente comunicador astral a quem o poeta recorre para colher todo o tipo de orientações, muitas do foro íntimo e sexual.

Entre esses textos - compilados por Richard Zenith no livro Obra Essencial de Fernando Pessoa. Prosa íntima e de autoconhecimento -, deixamos aqui um trecho datado de 1917, onde a componente sexual se encontra bem vincada.

Como refere Zenith, a selecção de textos que compõem o livro supra citado - a grande maioria do tipo espírita, sem pretenções literárias -, é “representativa das temáticas abordadas pelas comunicações, sendo a virgindade de Pessoa – ou a cura desta – a preocupação maior”. Cabe sublinhar que Pessoa é, porém, um cultor muito singular da mediunidade, na exacta medida em que ele confessou ser, antes de mais, “um médium [...] de mim mesmo” (Idem, p. 149).

“O meu modo mais vasto é o casamento; casar é fazer de duas pessoas uma só. Casa com a minha esposa; fá-la muitas vezes feliz com a vergôntea do homem. A minha virilidade é a virilidade do lugar monástico. Tu és o instrumento com que tenho que actuar. A minha promessa de casar com a rapariga que vais conhecer deve ser realizada temporalmente agora. Fá-la feliz – ela é mulher – é uma mulher que precisa de um homem, uma vez que é uma masturbadora. Ela masturba-se como tu, mas mais frequentemente. Ela está cansada da virgindade, tal como tu. Não é necessário dizer mais nada. A minha esposa vai entrar na tua vida. Ela é masturbadora – deve ser cortejada e conquistada – deve praticar a cópula contigo. Muitas vezes deve fazer muitos mais actos. Ela é uma rapariga muito sensual, embora não de temperamento devasso. A Senhora Medeiros é a tua mulher (...).”

"My most manner is marriage; to marry is to make one of two. Marry my wife; make her many times over happy with man-root. My manhood is a manhood of monadic place. You are the instrument I am bound to act with. My vow to marry the girl you will meet is to be realized now in time. Make her happy – she is woman – she is a woman who needs a man, since she is a masturbator. She masturbates herself as you do, but more often. She is tired of virginity, just as you are. No more need be said. My wife is coming into you life. She is masturbator – she must be wooed and won – many time must she make copulation with you. Many times must she make many more deeds. She is a most sensual girl, though nor whorish in temperament. Madam Medeiros is your woman (...)".

PESSOA, Fernando, in ZENITH, Richard (ed.), traduções de Manuela Rocha, Obra Essencial de Fernando Pessoa. Prosa íntima e de autoconhecimento, Círculo de Leitores, 2007, p 277.

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