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Uma leitura plástica de uma fotografia documental


Na imagem, da esquerda para a direita: Bruno Marques (perche) Diana Costa e Silva (Cecília Meireles), Susana Pinto (maquilhagem), Pedro Lacerda (Fernando Correia Dias) e a cânon 5D (que aqui é o tema e a personagem principal da foto). Reflectidos no espelho, os responsáveis pela imagem do filme: Luís Vaz tirando a foto e André Cardoso, o director de fotografia da curta-metragem, questionando o realizador sobre a planificação da cena.

Na sequência da conversa que esta fotografia gerou, três referências da história da pintura ocidental foram evocadas.
A primeira é O Casal Arnolfini (1434) de Jan van Eyck, pela via do tema do criador da imagem dentro da própria imagem. Note-se que, tal como na pintura do artista flamengo, reflectido no espelho, em escala diminuta e esfumado pelo efeito de distância, o criador passa perfeitamente despercebido.


A segunda é a Las Meninas (1656) de Diego Velázquez. Também aqui o centro da imagem (figura feminina) não coincide com o tema principal da obra - neste caso, o tema seria “a imagem (fixa) da produção da imagem (em movimento)”-, ocupando o espectador igualmente o lugar do Soberano/Realizador reflectida no espelho. Mas ao contrário do retrato oficial da família real espanhola, o dispositivo de fabricação da imagem (tela e pincel vs. câmara de filmar), passou para o lado esquerdo da composição, e a figura feminina (retratada vs. protagonista) que ocupa a centralidade da composição, já não aparece de frente mas de costas.

A terceira é A Vénus ao Espelho (1647-1651) igualmente de Velázquez, que aflora o tema da beldade que olha para fora da imagem, revelando apenas um vago reflexo da sua face. Pois fitando, através do espelho, o espectador (e/ou o realizador), desmonta o dispositivo voyeuristico do ver sem ser visto, o que, por sua vez, permite convocar a ideia da consciência da representação, muito característica de Velazquez. Mas ao contrário do famoso Nu do pintor espanhol, o reflexo do rosto aqui não diminui, antes hiperboliza o efeito de distância entre olhar masculino e presença feminina. Desse modo, o fotógrafo torna a Mulher, de uma maneira dúplice e ambígua, ora num objecto abstracto/ideal, frágil e tangível no primeiro plano (mulher genérica de costas, espécie de boneca funcional), ora num sujeito concreto, autónomo e emancipado, agora incapturável e até ameaçador num segundo plano (actriz portuguesa, talentosa, experiente, de personalidade bem vincada e detentora de um forte espírito crítico).

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