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Império espiritual sobre o cadáver de um império material


“Passados trezentos e cinquenta anos, Pessoa pôde, finalmente, escrever o epitáfio do império que é a Mensagem (Lopes, 1986), mas esqueceu que o corpo que ficou a apodrecer ainda não tinha encontrado sepultura. Qualquer epitáfio precisa de suporte, seja ele material ou metafórico. O império, enquanto cadáver, continuará organicamente a suportar a nação, a construção imaginada e em tudo mistificadora da nação salazarista.
Adiar a consciencialização de que o império colonial é apenas um cadáver significa para a nação continuar a autocontemplar-se como centro de um grande império.
[...] Depois de ter diagnosticado a morte do império, o tratamento que Pessoa propõe é o de reimaginar um novo imperialismo mítico e poético, em tudo diverso dos imperialismos modernos e centrais (decadentes). Se a nação de navegadores não teve a possibilidade de produzir um imperialismo de cultura no século XVI, é agora tempo de o reconstruir a partir daquela ‘minguada e passiva estirpe de sebastianistas’ que perpetuaram o conceito de império.
[...] Pessoa, tal como Bandarra, Vieira, Pascoais, Agostinho da Silva, foi um criador de mitos. O Quinto Império, apesar de ser apenas um mito poético, continua a perpetrar em vida o cadáver do império, a adiar o enterro já anunciado pela sinfonia e pelo requiem de Os Lusíadas. Enfim, se o diagnóstico da morte do império material português estava correcto, o tratamento proposto por Pessoa (D. Sebastião, Quinto Império) é, por sua vez, uma recaída, uma vez mais mítica, que alimentou a imagem do português como povo predestinado, sobretudo numa sociedade como a sociedade salazarista que, em nome desse mesmo destino, se aproveitou do adiamento do enterro para procurar convencer-se a si mesma e aos outros de que vivia realmente uma existência miraculosa."
- RUSSO, Vincenzo, “Cultura e imperialismo – o império como ‘cadáver adiado’”, in A Arca de Pessoa (org. Steffen Dix e Jerónimo Pizarro), Lisboa, ICS, 2007, pp. 75-90.
Na imagem: Um plano do filme “Poesia de Segunda Categoria”

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