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António Ferro: a ambição de transformar o exercício do poder numa "obra de arte contemporânea"


“Nos Anos 30, Portugal teve a singularidade de não pretender apenas que as artes servissem o poder. Teve ainda a ambição de tranformar o exercício do poder numa forma de criação artística, conseguindo a proeza de expor internacionalmente a acção governativa de Salazar como ‘obra de arte contemporânea’ (1).

[...] É verdade que António Ferro advogava, em relação às artes, uma ‘política do espírito’ qualificada, não só na medida em que se verificava o facto comum do poder estar disposto a apoiar os ‘artistas de vanguarda’(2), defendendo assim, ‘audaciosamente’, com ‘irreverência oficial’, a arte moderna; fora isso, falar, nessa altura, de acção politica como obra de arte não fazia sentido. Não é que fosse impossível ao hábil jornalista, que se tornara director do Secretariado de Propaganda Nacional, essas acrobacias de linguagem que em outros momentos haviam de facto produzido imagens de grande eficácia.

Numa passagem do seu discurso de 1935, por ocasião da entrega dos primeiros prémios do SPN consagrados às artes plásticas, Ferro depois de lembrar que os artistas portugueses se queixaram, durante muito tempo, da ‘indiferença ou desprezo dos governantes pelas suas aspirações e realizações’, avançava já que ‘faltavam poetas na governação’, ‘homens para quem a luta pela vida fosse, ao mesmo tempo, a luta pela arte’(3). Mas a sofisticada transformação da acção governativa de Salazar em obra de arte não parecia estar incluída na sua ‘política do espirito’(4), e durante algum tempo, o elogio da obra empreendida pelo Estado Novo permaneceu estritamente confinado aos limites da razoabilidade, aparecendo como mera acção de propaganda.”

[Notas do texto:] (1) Ver Discurso de António Ferro do Pavilhão de Portugal: In Portugal, 1937, n.º 1, Junho de 1937. Ver também “Um Notável discurso de António Ferro”: In Diário de Notícias de 13 de Junho de 1937. (2) Discurso pronunciado na Sociedade de Belas Artes, em 23 de Março de 1935, no banquete comemorativo da I Exposição de Arte Moderna, recolhido in António Ferro, Arte Moderna, Edições SNI, 1949, p. II. (3) Idem. Idem. (4) António Ferro, “Politica do Espírito”, in Diário de Notícias de 21 de Novembro de 1932.

MARGARIDA ACCIAIUOLI, “O duplo jogo da arte e do poder” (coord. Margarida Acciaiuoli, Joana Cunha Leal, Maria Helena Maia), in Arte & Poder. – Lisboa: IHA / Estudos de Arte Contemporânea, p. 15.

Na imagem: António Ferro interpretado por João Didelet no filme “Poesia de Segunda Categoria”


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