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A reacção de Fernando Pessoa ao discurso de Salazar proferido, em 1935, na Festa dos Prémios Literários


O discurso que Salazar proferiu, em 21 de Fevereiro de 1935, na Festa de entrega dos Prémios Literários atribuídos pelo SPN, produziu em Fernando Pessoa um profundo descontentamento em relação ao Estado Novo, tal como se encontra atestado numa carta dirigida ao Presidente da República Portuguesa de então, Óscar Carmona.


Esta terceira fase da Ditadura, Senhor Presidente, começou por afirmar-se no integralismo monárquico disfarçado de Estado Novo, continuou afirmando-se no integralismo, já menos disfarçado, do chamado Estado Corporativo, e acabou com afundar-se nos últimos arrancos do Prof. Salazar, e nomeadamente na segunda parte do Prefácio aos seus Discursos, por integralmente integral, isto é, francamente inimigo de duas coisas – da dignidade do Homem e da liberdade do Espírito.

Com efeito, na citada segunda parte do citado Prefácio, parte essa de que o principal e essencial politico foi dito ou lido numa sessão pública, da entrega de Prémios, no Secretariado de Propaganda Nacional, diz-se aos escritores que têm eles que obedecer a certas directrizes. Até aqui a Ditadura não tinha tido o impudor de, renegando toda a verdadeira politica do espírito – isto é, o pôr o espírito acima da política - vir intimar quem pensa a que pense pela cabeça do Estado, que a não tem, ou de vir intimar a quem trabalha a que trabalhe livremente como lhe mandam.

PESSOA, Fernando, carta ao Presidente da República, [1935], in ZENITH, Richard (ed.), Obra Essencial de Fernando Pessoa. Cartas, Círculo de Leitores, 2007, pp. 433-434




Na imagem: Salazar discursando, interpretado pelo actor Paulo João - cena do filme “Poesia de Segunda Categoria”.


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