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As críticas da “Presença” a António Ferro: traição ou evolução?


“Sente-se a lagarta traída pela borboleta”? – no filme “Poesia de Segunda Categoria,” é esta a pergunta que Fernando Pessoa faz a António Ferro, depois de questionado se também ele considerava o director do SPN um traidor à literatura.

Tal como num post anterior se fez menção, os Prémios Literários do SPN são, logo após o seu primeiro anúncio, em finais de 1933, fortemente criticados pela  Presença. Na sua base está o repúdio de um critério de selecção exclusivamente centrado na tónica nacionalista, o que implicava, de acordo com essa perspectiva, a redução do “artista a servidor de qualquer doutrina ou seita”.

Para além deste constrangimento, resultante da intenção amplamente construtiva imposta pelas directrizes corporativistas e anti-individualistas do Estado, a própria coerência do António Ferro relativamente ao seu passado é posta em cheque. Um articulista (A. N.) transcreve mesmo algumas tomadas de posição na imprensa do próprio Ferro, anos antes de assumir o cargo de director do SPN, e que entram em clara contradição com os posicionamentos estéticos e idelógicos anunciados pela “Politica do Espírito” (ver post anterior).
Volvido pouco mais do que um ano, na conferência que, em 21 de Fevereiro de 1935, profere na primeira sessão de entrega dos Prémio Literários do SPN, António Ferro responde a tais criticas em nome da evolução que nele diz ter ocorrido. Num recente estudo intitulado “Prémios do Espírito”, Rui Pedro Pinto dá criticamente conta dos argumentos avançados por Ferro para justificar (e glorificar) essa mudança (ou diriamos transformação?).

No discurso pronunciado na primeira festa de distribuição dos Prémios Literários do SPN em 1935, referindo-se a “certas obras dos primeiros anos da carreira literária”, reivindicava o “direito da evolução quando ela é sincera e honesta”: “quando pretenderem barrar-nos o caminho, lançando-nos ao rosto pedras mortas de outras idades, saibamos responder com aprumo e  serenidade: ‘Esse fui eu, mas não sou eu!’”

[...] A sequência de etapas necessárias – que lhe permitiram concluir ser um “lutador incorrigível por temperamento e por nacionalismo, consciente hoje, inconsciente no começo”, e que lhe possibilitarão afirmar, enquanto director do SPN, que “nacionalismo e vanguardismo não são duas palavras incompatíveis, que, pelo contrário se completam” (Ferro s.d., 9, 17 e 18) – contemplam um episódio que, a meu ver, se revelou determinante: o encontro com Salazar, a entrevista que realizou para o Diário de Notícias com o “Chefe politico mas principalmente Chefe moral e Chefe intelectual”, e que daria origem a um livro publicado em 1933, traduzido para diversas línguas. Seria “esse longo dialogo” que, tal como refere, “definira, concluíra a minha evolução, fizera-me compreender para sempre que o meu inconformismo sistemático [...] não conduzia a nada”; desse modo, “foi deste encontro da minha fome de acção, da minha audácia, já então reflectida, com o espírito construtivo, compreensivo e sereno de Salazar, que nasceu o Secretariado de Propaganda Nacional”.

PINTO, Rui Pedro, Prémios do Espírito. Um Estudo sobre Prémios Literários do Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo, Lisboa, ICS, 2008, pp. 49-51.

Na imagem: o poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos publicado na revista Presença em 1933.

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