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A "reescrita" de um poema da Mensagem: um súbito desconsolo de Pessoa sobre Portugal?


“O elemento mais significativo reside todavia no facto de o poema intitulado ‘Afonso de Albuquerque’ ser completamente diferente da versão incluída na organização definitiva da Mensagem. Esta informação é tanto mais importante quando ela traduz a incerteza de Fernando Pessoa em relação à organização deste texto, e em período já tão avançado deste ano de 1934. A poucos meses do concurso do SPN, Pessoa envia à revista dirigida por um dos seus amigos uma versão do poema ‘Afonso de Albuquerque’, que será substituída na organização definitiva da Mensagem.

[...] na primeira primeira versão o ‘seu duro passo faz tremer o solo’; na segunda ‘calara mais do que o submisso mundo / Sob o seu passo fundo’. [...] O ‘duro passo’ provoca abalos, e afirma a vontade e a veemência do poder exercido sobre o mundo inteiro, o que já não se não verifica na segunda versão, porque o ‘passo fundo’ , embora deixando marcas, resta localizado, bloqueado pela própria profundidade da pegada.

[...] não se teria compreendido que Fernando Pessoa consagre à mesma personalidade histórica [...] dois poemas, no caso de estes não procederem a análises e a construções poéticas nitidamente diferentes.

[...] Concluirei quase como Pessoa: Afonso de Albuquerque dera-se conta de que os conflitos futuros haviam de se engendrar nos territórios onde fora gerada a civilização do Mediterrâneo. Infelizmente, a sua concepção do império já não podia ser reconhecida pela corte ‘anã’ de Lisboa. Disso irá morrer o grande espírito de Afonso de Albuquerque. Esvaziado de espírito, o corpo definha e morre. Como Portugal."

MARGARIDO, Alfredo, “Um poema desconhecido”, in Revista Colóquio/Letras , n.º 85 (Mar. 1985), p. 36-44. [texto integral aqui]

Na imagem: a primeira versão do poema ‘Afonso de Albuquerque’, que acabou por ser substituída na organização definitiva da Mensagem (Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa, Guimarães Editores, 2009. Edição Clonada do Original da Biblioteca Nacional de Portugal) 

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Uma análise de um poema da Mensagem

Entre os estudos mais interessantes (e importantes) recentemente publicados sobre a Mensagem de Fernando Pessoa, encontra-se o livro de Nuno Hipólito que leva o sugestivo título de “As Mensagens da Mensagem”, publicado originalmente em 2007. 
Tal como o autor explica no seu blog Um Fernando Pessoa, em razão do livro se encontrar actualmente esgotado nas livrarias, Hipólito decidiu disponibilizá-lo online, em PDF gratuito, numa versão actualizada.

A critica literária de Fernando Pessoa sobre a “Romaria”: elogio ou ironia?

A opinião de Fernando Pessoa sobre a obra e a figura de Vasco Reis não é pacífica. O autor da Mensagem escreveu mesmo sobre A Romaria, livro que tinha ficado à frente daquele no concurso do SPN de 1934. Mas enquanto que no website "Um Fernando Pessoa" se refere que esta “crítica, honesta e subtil, parece prova evidente de que [Pessoa] não guardara rancores do prémio que lhe fora a ele mesmo concedido”, já José Blanco, num ensaio intitulado “A verdade sobre a Mensagem” aponta para o sentido oposto:

O “sebastianismo racional” de Fernando Pessoa não é um paradoxo mas antes um cinismo pragmático.

"[...] como conciliou Pessoa o racionalismo livre-pensador da sua formação com a inclinação para as inúmeras doutrinas e práticas ocultistas que cultivou ou pelas quais se interessou? Uma tentação seria a de responder, simplesmente que Pessoa, com as suas personalidades múltiplas, era contraditório, paradoxal, que conviviam nele sem problema estas e outras antinomias.