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Sobre o perfil reaccionário de Pessoa: Alfredo Margarido vs. Jacinto Prado Coelho


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As posições políticas de Fernando Pessoa constituem hoje um dos problemas que mais motiva investigadores e pessoanos. Basta citar alguns estudos e artigos a que neste blog já fez referência, de autores como José Barreto (1, 2, 3), Onésimo T. Almeida, Teresa Rita Lopes ou Nuno Hipólito, para pecebermos o quão actual é o assunto. Porém, a discussão deste problema é mais antiga. Logo em inícios de 1975, isto é, no período que imediatamente se seguiu ao fim da ditadura do Estado Novo, um aceso confronto de perspectivas desponta entre dois grandes intelectuais e pessoanos dessa época.

Após uma então recente publicação de textos inéditos de Pessoa, que motivou uma releitura das convicções políticas do poeta por parte de Jacinto Prado Coelho (Colóquio/Letras, Jun. 1974), surge na revista Colóquio Letras um artigo que repudia uma suposta tentativa de afastar Fernando Pessoa do nacionalismo oficial do Estado Novo. Deixamos aqui apenas breves trechos do artigo de Margarido, assim como da resposta que, na mesma publicação, Jacinto Prado Coelho apresenta.

"A publicação de mais alguns textos inéditos de Fernando Pessoa permitiu a Jacinto do Prado Coelho algumas considerações que vão no sentido doutras de Jorge de Sena e de Pedro da Silveira para recolocar Pessoa entre os autores que se opuseram ao regime ditatorial. Compreendo perfeitamente a intenção dos autores, mas receio deveras que se trata de uma tarefa inglória e, por outro lado, desnecessária. Não me parece que a tarefa mais importante e sedutora seja a de fazer coincidir a dinâmica da poesia de Pessoa com a sua atitude política, mas antes a de saber como foi possível a convergência dum homem cujas posições políticas eram discutíveis, ou francamente direitistas, com o grande poeta que ele foi, que ele continua a ser e que será enquanto houver língua portuguesa. (...)

É por isso difícil aceitar sem algumas restrições a afirmação peremptória de Jacinto do Prado Coelho: "de modo nenhum ao elaborar a Mensagem, o autor se identificou com o nacionalismo oficial de 1934, católico-apostólico, monolítico, rapace e hipócrita, engalanado com a oratória fascista da mística imperial". Na verdade Pessoa rejeitava muita coisa nessa situação ditatorial, mas isso não o impedia de procurar o lugar de poeta oficial. (...) O que significa muito claramente que Pessoa se integrou numa orientação política de direita, cujos excessos denunciou, sem por tanto ter procurado instalar-se na oposição.”

MARGARIDO, Alfredo, “Sobre as posições políticas de Fernando Pessoa”, in Revista Colóquio/Letras , n.º 23 (Jan. 1975), p. 66-68. [texto integral aqui]

Em resposta ao artigo de Margarido, Jacinto Prado Coelho argumenta: 

“[...] ao afirmar que Pessoa se não identificou  com o ‘nacionalismo oficial de 1934’, referia-me, claro, a uma identificação profunda, autêntica, pois era sobretudo em inéditos que me fundamentava. [...] Margarido aduz números de A Revolução de 1933 em que se recomenda ‘Mar Português’ pelo seu valor pedagógico, nacionalista. Nada de surpreendente nesta ‘descoberta’: todos sabemos como até então se mostrara reaccionário o pensamento politico de Pessoa: [...] Mas o provável é que depois, precisamente, da concessão do prémio da ‘segunda categoria’ à Mensagem e de, nas fileiras oficiais, se ter procurado ‘assimilar’ o autor, F. Pessoa tenha sentido agudamente quanto o separava do nacionalismo compressor de Salazar e adeptos. (No espólio, um só cartão de Salazar, sem uma única palavra manuscrita; assim talvez agradeceu o ditador a oferta dum exemplar do livro.)

COELHO, Jacinto do Prado, “Comentário a ‘Sobre as posições políticas de Fernando Pessoa’”, in Revista Colóquio/Letras , n.º 23 (Jan. 1975), p. 68. [texto integral aqui]

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Associada ainda à problemática da orientação política de Fernando Pessoa, Margarido aborda a questão do estatuto e do critério de utilização dos apontamentos e rascunhos deixados inéditos. Uma vez que a publicação desses apontamento e rascunhos é um trabalho que ainda se encontra em curso, a "observação metodológica" de Margarido mantêm a sua pertinência: 

"Serei ainda obrigado a fazer uma observação metodológica. (...) Trata-se aqui de uma confusão perigosa, porquanto se pretende explicar a figura de Pessoa e a sua atitude política colocando no mesmo plano os textos publicados, que são intervenções políticas objectivas, e os textos que ficaram entre os inéditos, que são decerto importantes mas não possuem o mesmo peso político. O documento inédito pode revelar uma tendência, mas não se pode ir além disso sem cair na hipocrisia. O texto revelador é aquele que na praça pública define a posição do autor e define as opções políticas duma época."

MARGARIDO, Alfredo, “Sobre as posições políticas de Fernando Pessoa”, in Revista Colóquio/Letras , n.º 23 (Jan. 1975), p. 66-68. [texto integral aqui]


Prado Coelho não deixa passar em branco a observação de Margarido, e responde de forma igualmente acutilante:

"É, no fim de contas, Margarido quem confunde duas coisas: o pensamento político de Pessoa e o comportamento político (público) do escritor. Ao estudo do pensamento político interessam por igual como documentos os textos que o poeta deu a lume e aqueles que, redigidos ou não com a intenção de os publicar, deixou ficar na gaveta. Se há, por vezes, desajustamento ou contradições entre os últimos e declarações e atitudes públicas, se se pode falar, a tal respeito, de prudência, manobra ou "hipocrisia", o facto não me preocupa, a mim que não sou panegirista; o que é preciso é interpretá-lo, depois de reunir todos os dados existentes para uma correcta interpretação."

COELHO, Jacinto do Prado, “Comentário a ‘Sobre as posições políticas de Fernando Pessoa’”, in Revista Colóquio/Letras , n.º 23 (Jan. 1975), p. 68. [texto integral aqui]


Na imagem: António Ferro - interpretado por João Didelet - e Fernando Pessoa - interpretado por Rui Mário - apertando as mãos (fotograma do filme “Poesia de Segunda Categoria”)






















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O “sebastianismo racional” de Fernando Pessoa não é um paradoxo mas antes um cinismo pragmático.

"[...] como conciliou Pessoa o racionalismo livre-pensador da sua formação com a inclinação para as inúmeras doutrinas e práticas ocultistas que cultivou ou pelas quais se interessou? Uma tentação seria a de responder, simplesmente que Pessoa, com as suas personalidades múltiplas, era contraditório, paradoxal, que conviviam nele sem problema estas e outras antinomias.