The Art of the Moving Picture (1915)
Uma das primeiras obras anglo-americanas a pensar o cinema como arte e a procurar um vocabulário próprio para o novo meio foi The Art of the Moving Picture (1915), de Vachel Lindsay.
Vachel Lindsay e o sonho inicial do photoplay
A obra de Nicholas Vachel Lindsay (1879–1931) é frequentemente lembrada pelo seu trabalho poético, mas inscreve-se também — discretamente e com força — nas primeiras tentativas de pensar o cinema como arte. Nascido em Springfield, Illinois, e formado em artes visuais, Lindsay encontrou na poesia o seu verdadeiro meio de expressão; mas a sua poesia recusava ficar confinada à página: exigia corpo, respiração e performance. O próprio chamou à sua prática Higher Vaudeville (“Vaudeville Superior”) — um gesto deliberado de elevação estética do espetáculo popular, como se fosse possível elevar a atenção pública até transformar a feira numa espécie de ritual.
É esse impulso de natureza estética — procurando transformar entretenimento em atenção — que atravessa The Art of the Moving Picture (1915), escrito quando os movies ainda eram vistos, por muitos, como passatempo menor ou novidade mecânica. Lindsay defende antes uma arte nova, visual e rítmica, cuja dignidade depende de aprendermos a julgá-la. O termo central do livro, photoplay, não é mero jargão de época: funciona como eixo conceptual e estético, nomeando a origem híbrida do cinema e o tipo de critério que ele exige. Num dos trechos mais claros do ensaio, Lindsay propõe uma ordem de avaliação que ancora o filme na fotografia, sem reduzir o cinema à fotografia:
Consider: first came the photograph. Then motion was added to the photograph. We must use this order in our judgment. If it is ever to evolve into a national art, it must first be good picture, then good motion.
(Chapter IX, “Painting-in-Motion”)
Ao mesmo tempo, Lindsay insiste que o cinema não pode ser reduzido nem ao teatro, nem ao romance, ainda que dialogue com ambos. A sua tese é a da diferença específica: o photoplay é uma forma própria, com parentescos, mas com gramática distinta. O trecho seguinte traça essa fronteira com precisão e permanece surpreendentemente útil:
The photoplay is as far from the stage on the one hand as it is from the novel on the other. Its nearest analogy in literature is, perhaps, the short story, or the lyric poem.
(Chapter XII, “Thirty Differences Between the Photoplays and the Stage”)
Hoje, o livro é valioso não porque todas as suas categorias tenham envelhecido sem ruído, mas porque captura o cinema enquanto ele ainda está a tornar-se ele mesmo: um meio jovem a inventar critérios, vocabulário e legitimidade. A vida do próprio Lindsay — poeta itinerante, voz pública, homem de estrada — espelha o mesmo gesto: trazer a arte para a circulação comum sem a empobrecer. Se certa teoria posterior por vezes parece “legenda de museu” escrita tarde demais, Lindsay soa mais como alguém a desenhar um altar enquanto o templo ainda está em construção.
Referências Bibliográficas
Lindsay, Vachel. The Art of the Moving Picture. New York: The Macmillan Company, 1915.
The Art of the Moving Picture. Project Gutenberg. Acesso em 15 de Março de 2026.
